Religião: A Cruz e o peso do que permanece e a Luz da Ressurreição que nos orienta

por: Padre Luís Borges
pároco de Valongo


Há algo na cruz que o nosso tempo não sabe bem como olhar. Não por lhe faltarem imagens, referências ou discursos, mas porque lhe falta, talvez, a disposição interior para permanecer diante daquilo que não pode ser simplificado. Vivemos rodeados de mecanismos de evasão. Tudo parece concebido para atenuar o desconforto, acelerar a resposta, neutralizar o vazio e evitar o confronto com o limite. Fugimos pela pressa, pelo excesso de estímulos, pela ocupação constante, pela necessidade quase compulsiva de preencher todos os intervalos com ruído. E, no entanto, a cruz permanece: silenciosa, imóvel, incontornável. E é precisamente isso que a torna tão difícil de suportar.

A cruz interrompe. Rompe a lógica da fluidez contínua com que tentamos organizar a vida. Obriga-nos a deter o olhar sobre aquilo que preferíamos contornar: a dor, a injustiça, a fragilidade, a perda, a solidão. Num mundo que valoriza a eficácia, o controle e a aparência de força, a cruz revela uma verdade mais profunda e mais desconcertante: a condição humana não é feita apenas de capacidade, afirmação e conquista. É também feita de vulnerabilidade. E talvez uma das maiores pobrezas espirituais do nosso tempo seja precisamente esta incapacidade de acolher a vulnerabilidade sem a interpretar imediatamente como falha.

O que significa amar quando amar já não é fácil?

A Semana Santa devolve-nos esta verdade com particular intensidade. Diante da cruz, muitas das categorias habituais deixam de bastar. O êxito deixa de ser critério suficiente, a utilidade deixa de explicar tudo, e a pressa revela-se impotente diante das questões decisivas. Que fazemos com a dor? Como permanecemos diante da injustiça? O que significa amar quando amar já não é fácil? A cruz não oferece respostas fáceis, mas obriga-nos a habitar estas perguntas com mais profundidade.

Importa, por isso, compreender que a cruz não é uma glorificação do sofrimento. O seu sentido não está na dor em si mesma, mas na forma como essa dor é vivida: na recusa da fuga, na permanência, na fidelidade ao amor mesmo quando tudo parece perdido.

A cruz mostra que há sofrimentos que não se escolhem, mas cujo modo de como são vividos pode ainda revelar grandeza, lucidez e sentido. É precisamente nisso que reside a sua força.

Talvez por isso tenhamos desaprendido a permanecer. Permanecer numa relação quando ela deixa de ser fácil. Permanecer numa promessa quando o entusiasmo inicial se extingue. Permanecer diante da dor alheia quando não temos resposta para oferecer. Permanecer, simplesmente, quando o impulso dominante é sempre o da substituição, da fuga ou do esquecimento. A cruz opõe-se a esta cultura da descartabilidade. Diz-nos que há coisas que só se tornam verdadeiras quando são levadas até ao fim. E que o amor não se mede apenas pela intensidade com que começa, mas pela fidelidade com que resiste.

A cruz devolve-nos a gravidade do humano.

Essa lição continua a ser profundamente atual. Num mundo saturado de ruído e opinião, a cruz devolve-nos a gravidade do humano. Recorda-nos que há dores que não pedem comentários apressados, mas silêncio, compaixão e presença. Reintroduz na vida as palavras que se tornaram estranhas à sensibilidade contemporânea: entrega, misericórdia, sacrifício, redenção. Não como conceitos abstratos, mas como dimensões concretas de uma existência mais verdadeira.

No fundo, a cruz obriga-nos a distinguir entre aquilo que pesa e aquilo que destrói. Nem tudo o que pesa destrói. Há pesos que purificam, que reordenam, que devolvem profundidade à vida. Talvez a grande ilusão do nosso tempo seja acreditar que viver bem é viver sem fardo. Mas uma vida sem peso pode tornar-se, facilmente, uma vida sem densidade. A cruz ensina-nos precisamente o contrário: que o essencial não é leve, que o amor verdadeiro exige entrega e que a esperança mais profunda não nasce da negação da dor, mas da sua transfiguração, no viver com amor.

Talvez seja isso que a cruz ainda tem para dizer ao nosso tempo: que nem tudo pode ser evitado, que nem tudo deve ser contornado, e que só quando deixamos de fugir daquilo que nos atravessa começamos verdadeiramente a compreender o sentido da vida.

E o sentido último da vida, vem, para os cristãos, da ressurreição de Jesus, ao mostrar que Deus atua na história e pode transformar a realidade, mesmo quando parece que restam apenas valas comuns, corpos mortos na estrada, cidades destruídas, onde não fica pedra sobre pedra. A vitória de Cristo, nossa vítima pascal, dá-nos a certeza de que o fio da história não é tecido apenas por mãos humanas. Se pensarmos que as coisas não vão mudar, recordemos que Ele triunfou sobre o pecado e a morte e possui todo o poder. Ele vive verdadeiramente.

A ressurreição dá-nos hoje a confiança de que Deus é capaz de remover as pedras do coração, todas as pedras da morte e da destruição; é capaz de transformar cemitérios em campos de paz, para fazer florir em campos arrasados pela guerra uma esperança viva e uma vida nova.  Esta é a força da ressurreição.  E, por isso, apesar das bombas e dos gritos de guerra, apesar das notícias diárias e de última hora, nós vemos sinais de esperança em tantos gestos de amor; nós acreditamos que, pela ação de Deus em nós e no íntimo do nosso mundo, é possível a Paz, é possível acolher os refugiados, é possível casar e dar à luz em pleno teatro de guerra, é possível derrubar muros e fronteiras, é possível esquecer-se de si e sair ao encontro de quem não tem nada senão as nossas mãos.

Mesmo se as notícias, tantas vezes, não são animadoras, mesmo se não há tréguas na guerra em tempo de Páscoa, nós continuamos a rezar pela paz, a exercitar a diplomacia espiritual, porque acreditamos ser possível assim remover a pedra dos corações envenenados. Nem tudo se resolve nos corredores da diplomacia, nos palácios ou nos corredores humanitários. A nossa união a Cristo Ressuscitado torna misteriosamente fecundas, a nossa oração e a mais pequena boa ação em favor da paz.

Ressoem, entre os alarmes das sirenes, entre os gritos de guerra, nas ruas da Ucrânia ou no oriente médio, nas nossas casas, ruas e praças, os sinos e as campainhas da Páscoa, com as palavras mais belas de Cristo Ressuscitado, todas as vezes que Ele encontra os Seus: «A Paz está convosco» (Lc 24,36; Jo 20,19.21.26).

Que o Senhor da Vida nos dê a todos – porque ou é de todos ou não será – uma verdadeira Páscoa de Paz!

Votos de uma Santa e Feliz Páscoa!

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