Cultura com raízes: apoiar quem constrói comunidade
Por: Joana Ribeiro Fitas*
O mês de junho trouxe-nos, mais uma vez, a Mostra de Teatro Amador de Valongo. Quinze associações subiram a palco, o público encheu o auditório em várias sessões e provou, com entusiasmo, que não só se valoriza a cultura no concelho, como o movimento associativo consegue mobilizar centenas de pessoas, noite após noite. A Festa dos Bugios e Mouriscos, que se realizou em Sobrado, é outro exemplo. Resultado do esforço e dedicação de uma associação local, com trabalho que atravessa gerações e leva Valongo muito além das suas fronteiras.
O mesmo se vê no FolkFest em Alfena, na Semana das Coletividades de Campo, nas Marchas Populares em Valongo, e em tantos outros eventos, grandes e pequenos, organizados ao longo do ano. Associações que fazem muito mais do que encher cartazes: trabalham com e para a comunidade.
Falamos de “valor”, e isso claramente passa pelo impacto económico — as associações animam as freguesias, dinamizam o comércio local, criam emprego indireto — mas falamos sobretudo de “valores”: coesão social, saúde mental, pertença, laços entre gerações. Um concelho sem movimento associativo perde vitalidade, perde identidade.
E é legítimo perguntar: e se um dia as associações se cansarem? Se, por falta de reconhecimento e de condições, as portas se forem fechando? Quantas crianças e jovens ficariam sem atividades? Quantos idosos perderiam o convívio? Quantos talentos locais deixariam de ter palco?
Não é um cenário exagerado. Sabemos que o Município investe na cultura — só este ano, de acordo com a ata de 22/05, 208 mil euros foram protocolados com as associações culturais. Embora pareça um valor avultado, trocando por miúdos, percebemos que não é. Senão vejamos, para a Mostra de Teatro Amador, cada associação recebe 1100 euros por peça — um valor que mal cobre custos básicos. Nas Marchas Populares, que arrastam público e dinamizam o comércio, cada associação recebe 2350 euros — verba que, como bem se sabe, mal chega para o tecido.
Importa sublinhar: o apoio que é atribuído às associações para as suas apresentações é, na prática, um pagamento por um serviço prestado, muito aquém do valor produzido, tal como acontece com as contratações externas. A diferença está nos valores, que são, infelizmente, muito discrepantes – basta consultar o base.gov.
A ACCV não pede mais. Pede melhor. Uma estratégia que valorize quem constrói cultura com raízes, quem investe tempo, criatividade e trabalho voluntário. Não somos tapa-buracos. Somos parte do que Valongo é — e pode ser.
Valongo tem associações dinâmicas, com potencial e vontade. Com mais visão, mais equilíbrio e mais reconhecimento, teremos ainda mais e melhor. E todos ganhamos com isso.
Pelo Movimento Associativo Popular e Voluntário. Pela cultura, arte, recreio, desporto e solidariedade promovidos pelas nossas associações. Por Alfena, Ermesinde, Campo e Sobrado, e Valongo.
*Presidente da Associação das Colectividades do Concelho de Valongo



