Olímpico José Magalhães é o treinador desde o início: 50 anos do Atletismo do Alfenense

A secção de atletismo do Atlético Clube Alfenense nasceu com a participação de José Magalhães e dois amigos numa prova popular realizada em 5 de maio de 1975, no Reguengo, entre Ermesinde e Alfena. Diz o ainda atleta que: “Nada sabíamos de atletismo, mas um dos meus amigos venceu e eu fiquei em sexto, tendo vencido por equipas.
Na altura o presidente do Alfenense era o senhor João Ribeiro e apoiou-nos e durante dois anos fizemos inúmeras provas de estrada. Recrutamos inúmeros miúdos, fiz o curso de monitor primeiro e depois em Coimbra fiz o curso de treinador de todas as modalidades. No final dos anos 70 e década de 80 tínhamos muitos miúdos, como tínhamos o campo do Alfenense quase só para nós consegui treinar as disciplinas todas do atletismo, desde saltos, lançamentos e as corridas. Chegamos a ter 50 atletas jovens na década de 80 e eram quase como meus filhos.
Mais tarde integramos a marcha atlética e houve necessidade de dedicar mais tempo ao Alfenense, cheguei a ter oito funções no clube, desde diretor, treinador, roupeiro, motorista e outros. Tínhamos todas as condições, mas depois na década de 90 começou a haver cortes nessas condições, o campo começou a ser utilizado para o futebol, perdemos a caixa de saltos, etc.
Tínhamos um subsídio de uma empresa de Alfena, mas nós poucas vezes vimos esse dinheiro, que no era entanto era levantado pela direção. Na altura faltou-me um braço direito para poder trabalhar melhor, mas nunca desisti pelo amor que tinha à juventude e ao atletismo”.

Foram e são muitas as vitórias do Atletismo do Alfenense

Foram (e são) muitas as vitórias do Alfenense em atletismo, diz José Magalhães que “chegamos a ganhar ao Porto nas provas de estrada, mesmo antes de estarmos federados. Já agora quando o clube se federou, houve um diretor de então que não me federou, dizendo que eu não tinha valor para isso, mas o futuro provou o contrário. Em determinadas alturas chegamos a ser o clube que mais atletas dava à Associação de Atletismo do Porto. O atual diretor de Atletismo, Paulo Serôdio e a esposa chegaram a integrar esse lote de atletas”.
Acerca das condições de treino, ou da falta delas atualmente, José Magalhães refere ao JNR que “para as disciplinas técnicas teríamos de ir à Maia, a Ramalde ou a Lousada. Gosto mais de ir a Lousada, mas a distância dificulta.
Não percebo porque em vários concelhos, até com menos população que o nosso há condições para o atletismo e em Valongo não há. Por isso há jovens do concelho que têm de ir para outros clubes”.
Sobre a situação atual do atletismo no Alfenense, refere que “atualmente subsiste graças ao nosso esforço e ao apoio do Paulo e da Liliana”.
Como atleta, José Magalhães destacou-se na marca atlética, tendo começado em meado dos anos oitenta. Em 1992 e 1996 teve o ponto alto com a participação nos Jogos Olímpicos de Barcelona e Atlanta. Do currículo faz parte a presença em campeonatos do Mundo (1995 e 1997), campeonato da Europa em 1998 e várias taças do Mundo e da Europa, isto sem falar das provas nacionais que venceu em 1988, 1994, 1995 e 1996.
Sobre a participação nos Jogos Olímpicos, Magalhães diz-se orgulhoso por ter representado Portugal, tendo alguma desilusão por não ter ido a uns terceiros jogos. O atleta Alfenense vestiu sempre a camisola do Alfenense, embora tivesse convites do FC Porto, Benfica e Sporting. Diz que “quando me convidavam e eu recusava, diziam que eu devia ganhar bom dinheiro no Alfenense e o que ganha era zero. Mas sinto-me bem assim. Tenho pena é que alguns diretores do Alfenense não tenham respeitado o atletismo”.


Voltando ao atletismo do Alfenense, e questionado sobre o futuro, refere não saber e diz que “gostava de ter um espaço que foi prometido quando foi construído o segundo campo, mas fui enganado. Defendo que o Alfenense podia ter uma academia de atletismo para evitar que atletas do concelho fujam para concelhos vizinhos. Quero voltar a realçar o apoio da empresa do Paulo Serôdio e da esposa, se não fosse esse apoio não havia atletismo no Alfenense”.
José Magalhães falou ao JNR da mágoa que sente ao ver que na Gala de Mérito do Desporto municipal, houve treinadores com muitos menos anos de carreira e menos títulos a receberem o Prémio Carreira e ele, com 50 anos de entrega total à modalidade, foi deixado para trás: “se calhar não foi propositado, mas que é injusto, lá isso é, apesar de reconhecer mérito a quem recebeu”.

Paulo Serôdio é diretor da Secção há 20 anos

O diretor de secção de atletismo do Alfenense é Paulo Serôdio, mas a experiência no atletismo começou antes, com a prática da modalidade.


Diz o dirigente que “na altura havia pouca oferta desportiva e as opções no Alfenense eram o futebol e o atletismo, o futebol cresceu e o atletismo nem por isso. Fui para o atletismo e senti um amor por parte do José Magalhães, havia jovens e crianças que, de certeza, não tinham esse amor em casa. O Atletismo existe no Alfenense, não graças ao Paulo e à Liliana, mas sim graças ao Magalhães. É dos melhores seres humanos que conheço. Mas voltando ao meu início, comecei a participar em provas e a ir a outras localidades, e eu gostava desse espírito. Depois a vida foi obrigando a outras coisas e deixei. Em 2004 o José Magalhães veio ter comigo para ser diretor de secção e eu não quis aceitar logo, porque tinha a empresa há pouco tempo, estava no início de vida, mas o Magalhães insistiu e também o presidente de então. A minha esposa também me incentivou e já cá estou há 20 anos. Mas o trabalho tem sido todo do José Magalhães”.
Desafiado a fazer um balanço destes 20 anos, Paulo Serôdio responde que “podia ser melhor. As condições são praticamente as mesmas, até a caixa de saltos nos tiraram. E quando as condições são tão precárias, a captação é difícil. Não vou pedir a uma criança que venha para a aqui para correr na rua. O trabalho não foi risonho, porque não se fazem omeletes sem ovos. A secção vai existir enquanto o José Magalhães puder e quiser. Houve oportunidade de se olhar mais para o atletismo quando foi construído o segundo campo, mas as coisas não correram bem, o Magalhães diz que se sentiu engando e com razão”.
Na passagem dos 50 anos da secção, Paulo Serôdio refere ao JNR que a prenda desejada era a criação de condições para o atletismo, o que facilitaria a captação de mais jovens para a modalidade.