A ADICE, Associação para o Desenvolvimento Integrado da Cidade de Ermesinde, comemora no próximo dia 30 de maio, 25 anos de existência. Para tentarmos aferir o momento atual desta instituição, ouvimos a fundadora e presidente da Direção, Maria Trindade Vale.
25 anos de ADICE. São 25 anos de trabalho, preocupações ou sucesso? ou então será uma mistura de tudo?
Sem dúvida, são 25 anos que representam uma mistura equilibrada de tudo isso. Muito trabalho árduo, preocupações constantes, conquistas importantes e muitos sucessos que nos orgulham. Ao longo deste percurso, a ADICE, tal como todas as IPSS, teve de acompanhar as transformações sociais, políticas e económicas do país, e responder com resiliência e criatividade às necessidades emergentes da comunidade do concelho de Valongo e do território envolvente.
Foram mais de duas décadas de compromisso firme com a coesão social, a formação profissional, a cidadania ativa e, mais recentemente, também com a mobilidade internacional. Com uma equipa técnica dedicada, parceiros estratégicos e uma rede de apoio cada vez mais sólida, fomos construindo um caminho sustentado, sem nunca perder o foco na missão que sempre nos norteou: promover o desenvolvimento integrado, com base na valorização das pessoas e no fortalecimento da comunidade.
Como qualquer organização com impacto social, vivemos momentos de dificuldade, enfrentámos constrangimentos financeiros, instabilidade legislativa e mudanças nos paradigmas de financiamento público. Mas essas preocupações fizeram parte do processo de crescimento e fortaleceram a nossa capacidade de adaptação e inovação. Tivemos também muitas alegrias e reconhecimentos — cada projeto bem-sucedido, cada jovem que completou a escolaridade e que viajou pela primeira vez graças à ADICE, cada formando que encontrou um rumo profissional com o nosso apoio, cada adulto que aumentou a escolaridade, representa uma vitória coletiva.
Estes 25 anos são, por isso, um reflexo de um trabalho contínuo, feito com paixão, profissionalismo e visão de futuro. Representam também a confiança que a comunidade depositou em nós ao longo destas décadas. Hoje olhamos para trás com orgulho e para a frente com determinação, certos de que a ADICE continuará a ser uma força ativa no desenvolvimento social, local e humano. Resumidamente, a ADICE cresceu com a comunidade, adaptou-se aos desafios dos tempos e manteve sempre o seu compromisso com a inclusão, o desenvolvimento local e a capacitação das pessoas.
Recuando 25 anos, como nasceu o projeto e como foi desenvolvendo?
A ADICE nasceu em 2000, fruto da visão e da vontade de um pequeno grupo de amigos, de cidadãos e cidadãs que acreditavam na necessidade de criar uma estrutura local capaz de responder aos desafios sociais e económicos de Valongo. Na altura, sentimos que era essencial criar uma estrutura que desse resposta às necessidades locais, principalmente no que respeita à intervenção social, mas também nas áreas da educação, formação e emprego. Começámos com projetos muito focados nestes pilares. Dois anos depois, em 2002, demos um passo muito importante. Tornámo-nos uma Instituição Particular de Solidariedade Social, o que nos permitiu alargar o nosso âmbito de atuação. Passámos então a intervir em todo o concelho de Valongo, com uma abordagem mais abrangente nas áreas social e comunitária. Desde então, o nosso percurso tem sido de crescimento contínuo. Criámos a nossa Comunidade de Inserção, abrimos Centros de Atividades de Tempos Livres, desenvolvemos projetos de apoio à vida, um Gabinete de Inserção Profissional. Em parceria com o IEFP e ANQEP implementámos programas de formação para jovens, através de Cursos de Aprendizagem, e para adultos com abertura do Centro Qualifica. Temos também investido bastante em iniciativas de promoção da igualdade de género e combate à violência doméstica. Orgulhamo-nos de participar em programas nacionais e comunitários, como o POPH, POISE e Pessoas 2030, e de manter parcerias estratégicas com entidades como o Município de Valongo, o Centro Distrital da Segurança Social do Porto e o IEFP. Ao longo destes 25 anos, temos procurado sempre responder às necessidades das pessoas e das comunidades, contribuindo para criar projetos de vida sustentados e um concelho mais justo e coeso.
O desenvolvimento da ADICE foi, assim, um processo progressivo, construído passo a passo, com base na escuta ativa da comunidade, na articulação com parceiros locais e na capacidade de inovar nas respostas sociais. A nossa trajetória não foi feita apenas de crescimento institucional, mas também de construção de relações de confiança com quem nos procura, com quem trabalha connosco e com quem acredita, como nós, que o desenvolvimento só faz sentido quando é inclusivo e sustentável.

Quais foram as primeiras valências e quais as diferenças para a atualidade?
Como referi, a ADICE teve um crescimento gradual, cresceu com a comunidade. Na altura, as necessidades no concelho de Valongo e os desafios que se colocavam à comunidade relacionavam-se com as questões sociais, onde se inclui naturalmente a qualificação escolar e profissional da população. Nesse sentido, iniciamos com o Projeto de Luta Contra a Pobreza, criámos o Centro Comunitário, os ATL, o Centro de Apoio à Família e a Comunidade de Inserção.
Hoje, passados 25 anos, a ADICE é uma entidade com uma intervenção muito mais diversificada e abrangente. A grande diferença está na amplitude e profundidade das respostas. Se antes trabalhávamos sobretudo com base em necessidades locais muito concretas, hoje somos também um elo de ligação, oferecendo oportunidades de aprendizagem, participação e crescimento muito para além do território de Valongo. Temos uma abordagem mais integrada e sustentável.
Em síntese, começámos com a missão de formar e incluir, e hoje mantemos essa missão, mas com meios mais sólidos, com maior escala e com uma abordagem integrada, respondendo aos desafios de um mundo em constante transformação.
A ADICE também foi crescendo quando se fala de instalações. Quer falar um pouco disso?
Sim, podemos dizer que o crescimento da ADICE enquanto instituição foi acompanhado também do desenvolvimento das suas instalações. A nossa sede é em Ermesinde, em instalações cedidas pela Santa Casa da Misericórdia, onde ainda estamos e onde funciona o nosso Centro Comunitário e Social de Ermesinde, com as suas diversas atividades, e o Espaço Jovem. Estivemos também vários anos em instalações cedidas pela Câmara Municipal Valongo. Durante esse tempo, criámos, na freguesia de Valongo, a Comunidade de Inserção uma resposta social de referência ao nível concelhio e distrital no que diz respeito à intervenção social junto de indivíduos em situação ou risco de exclusão social, nomeadamente pessoas portadoras de deficiência e/ou doença mental. Ainda neste local criámos condições de excelência para a realização de formação no âmbito da Qualificação de Pessoas com Deficiência e/ou Incapacidade, nomeadamente Floricultura e Jardinagem – Operador/a de Jardinagem; Hotelaria e Restauração – Cozinheiro/a; Secretariado e Trabalho Administrativo – Assistente Administrativo/a; e Materiais (Indústrias da Madeira, Cortiça, papel, Plástico, Vidro e outros) – Carpinteiro/a de Limpos. Por isso, sim, esse crescimento foi essencial para acompanharmos o aumento da nossa atividade.
Desde há dois anos que temos a nossa Casa, na Avenida 25 de Abril. Aqui continuamos a crescer e a ambicionar sempre mais, a acrescentar mais projetos de forma a que as instalações da ADICE sejam um ponto de encontro — um espaço de oportunidades, aprendizagem e partilha. E é isso que nos orgulha mais.
Quantos formandos e formadores já passaram pela ADICE?
Ao longo destes 25 anos, passaram pela ADICE milhares de formandos e várias dezenas de formadores, nos mais variados projetos de formação, como Cursos de Aprendizagem; Formação para Pessoas com Deficiência e Incapacidade; ações dinamizadas pelo Centro Qualifica; Projetos Locais; Formações Modulares; Programa +Digital e Formação de Formadores. Embora não seja possível quantificar com precisão cada trajetória individual, sabemos que impactámos positivamente a vida de um número muito significativo de pessoas — não apenas em Valongo, mas também noutras zonas do distrito do Porto. São números que nos enchem de orgulho, mas mais importante do que os números são os percursos transformados. Cada formando representa uma história, um percurso de superação, de reinvenção ou de descoberta. Desde jovens à procura do primeiro emprego, a adultos em reconversão profissional, a pessoas em situação de vulnerabilidade social ou migrantes em processo de integração, a ADICE tem sido uma porta aberta para o conhecimento, a capacitação e a mudança. Muitos dos nossos formandos mantêm o contacto connosco, partilham os seus progressos e reconhecem o papel transformador que a passagem pela associação teve nas suas vidas.
Do lado dos formadores, temos tido o privilégio de trabalhar com profissionais altamente qualificados e comprometidos com a missão social da ADICE. São pessoas que, para além de transmitir conteúdos, se dedicam a motivar, orientar e inspirar. Essa relação de proximidade entre formadores e formandos tem sido uma das marcas distintivas do nosso trabalho.
Atualmente, como está a ADICE, qual a atividade e quais os problemas?
A ADICE continua a desenvolver uma atividade dinâmica e comprometida com a sua missão, centrada na formação profissional, na promoção da empregabilidade e na intervenção comunitária. Como todas as restantes IPSS, enfrenta desafios comuns ao setor, como a complexidade e morosidade dos processos de acesso a apoios públicos, e a necessidade permanente de adaptação a novas realidades sociais e às exigências das comunidades que serve.
As entidades públicas colaboram com o projeto, como definiria essa colaboração?
A colaboração com as entidades públicas tem sido fundamental. Contamos com o apoio do município, da administração central e de vários organismos públicos, seja através de programas, parcerias ou financiamento. Naturalmente, há sempre margem para reforçar essa colaboração, especialmente se pensarmos no impacto social do nosso trabalho. O nosso desejo é continuar a fortalecer essa relação, numa lógica de complementaridade e cooperação em prol da comunidade.
Como vai ser a comemoração dos 25 anos?
Vamos comemorar de uma forma singela, mas sentida. É uma cerimónia onde queremos partilhar todo o nosso empenho e dedicação a todos e todas que connosco vivem, crescem e partilham as suas vidas.
Como vê a ADICE daqui a 25 anos e qual a prenda que gostaria de receber?
Olhamos para o futuro com esperança e ambição. Queremos continuar a crescer, a inovar e a aprofundar o nosso impacto social. Um dos nossos grandes objetivos é sermos uma porta aberta onde ninguém fica para trás. Pretendemos também reforçar a nossa intervenção com novas valências sempre em prol da comunidade do concelho. Estamos igualmente empenhados em alargar parcerias e em garantir a sustentabilidade das nossas respostas sociais. Acima de tudo, queremos que a ADICE continue a ser uma referência no concelho de Valongo, como uma instituição próxima das pessoas e comprometida com o desenvolvimento humano e comunitário.

