20 anos de carreira da ilustradora Carla Monteiro

A celebrar duas décadas de carreira nas artes plásticas, a ilustradora valonguense Carla Monteiro celebrou a data com a exposição “20 anos de CorAção”, que esteve patente nos Paços do Concelho e na Biblioteca Municipal até ao final de fevereiro passado e que foi visitada por muitas escolas, para além de visitantes individuais. A organização esteve a cargo da Câmara de Valongo.
Também a convite da edilidade valonguense recriou o “São João de Sobrado”, a tradicional festa da Bugiada e Mouriscada, livro que ainda não saiu. Ilustrou vários livros e participou ainda em várias exposições.
Aqui ficam as suas declarações ao Jornal Novo Regional, em publicação na edição de 9 de abril passado.

Carla Monteiro explica a sua obra às crianças

Como define o seu trabalho, desenho, pintura, ilustração ou de outra forma?
Vejo o meu trabalho essencialmente como uma expressão de sensibilidades… Tenho trabalhos que são por encomenda”, como é o caso de trabalhos para livros infantojuvenis, nos quais tenho trabalho com mais intensidade nos ultimos anos e, nesses, o trabalho é de ilustração temática e com guião. Outros trabalhos surgem de forma mais “livre”, e podem ser de pintura – acrilico, óleo, aguarela… trabalho com os materiais que tenho, com tecnicas diversas e mistas. Das técnicas, tenho como favoritas a utilização do lapis de cor e a aguarela.

Como surgiu o gosto pela arte?
O gosto e o encanto pela arte surgiu muito cedo, ainda pequena… Andava no ensino básico e já me debruçava com muita dedicação aos lápis de cor e à mistura das cores. Foi crescendo com a prática. Fui observando e encontrando no trabalho de outros pintores, como Frida K., Salvador Dali um aconchego, e com o passar dos anos vieram sonhos de um dia poder ser uma artista como eles… criativos, revolucionários e distintos. No entanto sinto que só em adulta encontrei o meu Traço… e o que me define – A cor. Não reajo bem ao monocromático, nem nas tintas e papeis , nem na vida… os cinzentos não me definem. Acho que o gosto pela arte nem surgiu, ele nasceu comigo. Sempre admirei o diferente… nos diferentes tons de pele, nas cores das pedras e nas carcaças das árvores, na natureza essencialmente, no ser humano (embora cada vez menos me inspire no ser humano)… Diria que o que me inspira são os afetos, os sentimentos e as emoções… As minha e as do outro…
Inspiram-me ainda lápis de cor novos… grandes e afiados, o meu filho e a minha mãe… pois são eles o meu maior suporte e meus maiores criticos.

Como funciona o processo criativo? Trabalha por encomenda? Por inspiração?
Trabalho por encomenda, embora reserve sempre alguma liberdade… não gosto e não consigo trabalhar com limitações ou regras rígidas. Aliás, quando me encomendam um trabalho tenho de o fazer de rajada mas com liberdade para brincar e colorir como eu o sinto. Se me pedem algo com muito “rigor” tendo a ficar bloqueada. Gosto de trabalhar por encomenda quando o trabalho proposto é desafiante e inovador…isso sim, dá-me mais “pica” para florear como eu o sentir.
Também trabalho muito por inspiração, embora me sinta limitada pela falta de técnicas – sou autodidata e aprendi com o que tinha “à mão de semear” – e essa inspiração surge em momentos distintos. Quando estou mais sensivel emocionalmente, mais fragilizada…seja por alegria, por tristeza, por desilusão ou por paixão. Funciono muito bem quando estou deprimida, tenho tendência para trabalhos mais elaborados e demorados, e tambeém quando estou apaixonada… Aí flui sem moderação. África, Mulheres, Oriente… temas diversos, mas quase todos eles com uma mensagem em torno dos “direitos humanos”… da pedagogia e da cultura.
Gosto de desenhar em casa, ou na esplanada do café… em silêncio ou com musica, mas sozinha…no meu canto concentrada.

Muitos dos seus trabalhos são para livros. Em quantos (e quais) participou? Como foi a experiência?
Tenho cerca de 8 participações em albuns ilustrados, livros, infantojuvenis. Também escrevi um livro, mas sinto que não estou pronta para a escrita. Sinto-me mais aconchegada com a imagem.

E quanto a exposições? Como tem sido o percurso?
Exposições não tenho feito muitas. no entanto desde que iniciei o percurso de “mostrar publicamente o meu trabalho” devo ter feito à data umas 16, todas elas no Norte. Não é facil nem barato montar uma exposição. Os apoios financeiros não são suficientes… Uma exposição pode rondar facilmente os 5000€ em material, e esse sim é o maior impedimento que encontro – conseguir apoios, patrocinios, seja para materiais de expressão/telas, tintas, molduras, suportes… Não sou uma “artista” bem calçada nesse sentido, tudo o que sai da minha mão é por minha conta.
Estive quase uma década sem pintar nada, por questões profissionais e financeiras. Algo que me deixa ligeiramente desanimada.

Tem ido a escolas, qual a recetividade dos alunos?
Felizmente tenho visitado algumas escolas e os alunos também têm vindo ao meu encontro, especialmente nas atividades que a Bilbioteca Municipal de VLG me tem convidado a participar. A receptividade, a curiosidade, tem sido extraordinária. As crinaças são sensiveis, é preciso falar com elas e expor para elas, num tom que lhes seja familiar, e acho que é aí que eu ganho terreno. Sinto-me muito próxima dos mais novos, identifico-me com eles e gosto de os desafiar… Sinto que consigo! Não tenho com os mais novos uma unica expriencia “menos positiva”.

Principais projetos para os próximos tempos?
Agora que estamos perante esta pandemia… Todos os projetos são “novos”. A minha atividade profissional entrou em standbye – formação profissional – e por isso vou estar uns meses com mais tempo para pegar em projetos no campo da ilustração. Estou de momento a finalizar as ilustrações para dois livros encomendados no inicio do ano, a desenvolver um meu – Sadako e o voo do Tsuru ( falará de Sadako Sasaki, origamis e a bomba de Hiroshima), se ainda for possivel, conto também com o lançamento de um livro no qual participei com ilustração, com os Bugios e os Mourisqueiros de fundo.
Não atingi ainda o meu melhor, tenho-me aplicado e esforçado muito para conseguir fazer da ilustração/arte um “modo de vida”…mas… há sempre o “mas”.
No mundo das artes o meu maior sonho – um dia poder ver o meu trabalho reconhecido devidamente… Não se recebe, pelo menos eu não recebo, a devida remuneração pelo meu trabalho, pelo empenho e pelo tempo dedicado, o feedback e o alcance dos meus trabalhos ainda é curto…