Natural de Ermesinde, o autor de Onde a Alma Respira o Vento alcançou o 1.º lugar no top nacional “Os Mais Vendidos – Pré-Vendas Livros” da FNAC, provando que a poesia continua a encontrar leitores num tempo acelerado.
Ermesinde tem vozes que nascem das suas ruas, dos seus silêncios, das suas estações, dos seus bairros e da forma muito própria como a vida acontece entre a proximidade do Porto e a identidade de uma cidade que nunca deixou de se reconhecer nas suas pessoas. Uma dessas vozes é a de Filipe Bacelo, escritor, poeta e contador de histórias, natural de Ermesinde, que nos últimos anos tem vindo a construir um percurso literário marcado pela emoção, pela proximidade com os leitores e por uma escrita profundamente ligada à condição humana.
Com o novo livro de poesia, Onde a Alma Respira o Vento, editado pela Letras Lavadas Edições, Filipe Bacelo alcançou um dos momentos mais significativos da sua carreira: o 1.º lugar no top nacional “Os Mais Vendidos – Pré-Vendas Livros” da FNAC. Um feito particularmente simbólico por se tratar de uma obra poética, num mercado muitas vezes dominado por romances, livros mediáticos e títulos de grande projeção comercial.
“Não escrevi este livro a pensar em rankings. Escrevi-o porque havia dentro de mim coisas que precisavam de respirar. Ver a poesia chegar ao primeiro lugar é algo que me comove, porque mostra que ainda há pessoas à procura de palavras que as abracem”, afirma o autor.
A obra propõe uma travessia pelos territórios da memória, da perda, do amor, do silêncio e da reconstrução interior. Em Onde a Alma Respira o Vento, Filipe Bacelo regressa à poesia com uma escrita que não procura mascarar a dor, mas antes transformá-la num lugar de encontro. O livro fala de fragilidade, de invisibilidade, de cansaço, mas também da persistência de quem, mesmo depois de se perder de si, encontra na palavra uma forma de continuar.
Para Filipe, a escrita nunca foi apenas um exercício literário. Foi caminho, abrigo e, muitas vezes, sobrevivência.
“Escrever salvou-me muitas vezes. Não no sentido bonito ou romântico da palavra, mas no sentido mais cru. Houve momentos em que a escrita foi o único lugar onde eu conseguia ser inteiro. A folha nunca me pediu explicações. A folha apenas me escutou”, confessa.
Antes de chegar a este novo livro de poesia, Filipe Bacelo foi construindo uma relação sólida com os leitores através dos romances. Obras como O meu erro foi não saber amar-te e Lembra-te de Mim Sob as Estrelas marcaram diferentes fases do seu percurso literário e emocional. São livros onde o amor, a perda, o arrependimento, a esperança e a possibilidade de recomeçar surgem como temas centrais.
Em O meu erro foi não saber amar-te, o autor aproximou-se de uma escrita mais intensa, atravessada por feridas, relações imperfeitas e personagens marcadas por escolhas difíceis. Já em Lembra-te de Mim Sob as Estrelas, Filipe voltou a explorar o amor como memória, promessa e permanência, perguntando até onde pode alguém esperar por aquilo que talvez nunca chegue.
“Os romances foram muito importantes para mim. Cada livro nasceu de uma fase diferente, de uma inquietação diferente. O meu erro foi não saber amar-te obrigou-me a olhar para a dor, para as falhas, para aquilo que muitas vezes não conseguimos dizer a tempo. Lembra-te de Mim Sob as Estrelas trouxe-me uma outra dimensão: a espera, a esperança, esse amor que fica mesmo quando a vida nos obriga a seguir em frente”, explica.
O amor, aliás, atravessa toda a obra de Filipe Bacelo. Mas não se trata de um amor idealizado ou fácil. Na sua escrita, o amor surge muitas vezes como lugar de confronto, de perda, de cura e de aprendizagem. É um amor que não apaga a dor, mas que a ilumina. Um amor que pode ser romântico, familiar, espiritual ou simplesmente humano.
“Eu escrevo muito sobre o amor porque acredito que ele é a grande força que nos sustém. Mas não falo apenas do amor bonito, perfeito, de fotografia. Falo do amor que fica quando tudo treme. Do amor que segura. Do amor que nos obriga a sermos melhores. Do amor que, às vezes, também nos parte para depois nos reconstruir.”
Neste caminho, a família ocupa um lugar fundamental. Filipe Bacelo não esconde que, por trás de cada conquista, existe uma estrutura afetiva que o ampara. A família surge como pilar, como refúgio e como uma das grandes razões para continuar a acreditar. Entre apresentações, livros, deslocações, processos criativos e momentos de dúvida, é no núcleo familiar que encontra força para prosseguir.
“A minha família é o meu chão. Sem ela, nada disto teria o mesmo sentido. Há conquistas que parecem individuais, mas não são. Quando um livro chega longe, quando uma sala se enche, quando um leitor se aproxima emocionado, eu sei que levo comigo todos os que me seguraram nos momentos em que pensei desistir.”
O autor fala da família com gratidão e emoção. Para ele, o sucesso literário não se mede apenas pelos números, rankings ou lugares alcançados, mas também pela possibilidade de partilhar esses momentos com quem esteve presente no caminho.
“Chegar ao primeiro lugar da FNAC é muito bonito, claro que é. Mas torna-se ainda mais bonito quando posso olhar para os meus e sentir que esta vitória também é deles. Porque foram eles que me viram cansado, inseguro, muitas vezes em silêncio. Foram eles que me lembraram quem eu era quando eu próprio me esquecia.”
Natural de Ermesinde, Filipe Bacelo nasceu a 10 de junho de 1979 e cedo encontrou nas palavras uma forma de compreender o mundo. Ao longo do seu percurso publicou obras que atravessam o amor, a perda, a procura de sentido, as relações humanas e o autoconhecimento. Do romance à poesia, passando pela literatura infantil, tem procurado chegar a diferentes públicos sem perder aquilo que considera essencial: a verdade emocional.
Além da escrita para adultos, Filipe tem também desenvolvido trabalho como contador de histórias, levando livros e sessões a escolas, bibliotecas, feiras do livro e espaços culturais. Entre os seus projetos infantis destaca-se O Dragão Furninhas e o Cozido das Furnas, obra inspirada nas Furnas, em São Miguel, que cruza imaginação, património, educação emocional e valorização da cultura açoriana.
“Quando estou diante de crianças, não sinto que esteja apenas a contar uma história. Sinto que estou a abrir uma porta. Às vezes, basta uma personagem, uma pergunta ou uma frase para uma criança perceber que também pode imaginar, sentir e falar sobre o que lhe vai por dentro”, refere.
Apesar da projeção nacional que a sua obra tem vindo a conquistar, Ermesinde continua a ocupar um lugar central no olhar do autor. É aqui que reconhece muitas das suas raízes, das suas memórias e da sua forma de estar no mundo. Ermesinde, cidade atravessada pelo movimento diário de milhares de pessoas e por uma identidade popular muito própria, surge também como território afetivo na construção do escritor.
“Ermesinde ensinou-me muito sobre passagem. Talvez por causa da estação, talvez por causa das pessoas que vão e vêm, talvez por esta sensação de estarmos sempre perto de tudo e, ao mesmo tempo, termos uma identidade nossa. Eu trago Ermesinde na forma como observo as pessoas. Trago as ruas, os cafés, os bancos de jardim, as conversas simples, os rostos que passam. Tudo isso entra na escrita, mesmo quando eu não digo o nome da terra.”
O sucesso de Onde a Alma Respira o Vento nas pré-vendas surge num momento particularmente importante para o autor. Depois de anos de trabalho literário, de encontros com leitores e de uma presença crescente em eventos culturais, ver um livro de poesia chegar ao topo da FNAC representa mais do que um resultado comercial. Representa, sobretudo, a confirmação de uma relação construída com o público.
“Tenho leitores que me acompanham há anos. Pessoas que já choraram comigo numa apresentação, que me escreveram mensagens depois de lerem uma página, que me dizem que um poema chegou no momento certo. Isso vale muito. O primeiro lugar é bonito, claro que é. Mas o mais bonito é perceber que há pessoas reais por trás desse número.”
A escrita de Filipe Bacelo é frequentemente atravessada por temas como o amor, a perda, o medo, a espiritualidade, a reconstrução e a esperança. Não uma esperança ingénua, mas uma esperança trabalhada, conquistada, nascida depois da queda. Talvez por isso a sua obra encontre eco em leitores que procuram livros capazes de falar de feridas sem as tornar espetáculo.
Em Onde a Alma Respira o Vento, o autor parece regressar ao essencial: a palavra como casa. Uma casa imperfeita, vulnerável, mas aberta a todos os que já se sentiram invisíveis, cansados ou deslocados.
“Não me interessa escrever para parecer maior do que sou. Interessa-me escrever para chegar ao outro. Se alguém lê uma frase minha e sente que não está sozinho, então a literatura cumpriu o seu papel”, sublinha.
O novo livro será também apresentado em sessões poéticas pensadas como experiências intimistas, onde a leitura se cruza com a reflexão, a música e o encontro com o público. Mais do que uma apresentação tradicional, Filipe Bacelo tem procurado transformar cada momento numa travessia emocional, aproximando leitores da poesia de forma direta e humana.
Para Ermesinde, este reconhecimento nacional tem também um significado especial. É a afirmação de um autor da terra, alguém que leva consigo o nome da cidade e que, através dos livros, tem chegado a leitores de vários pontos do país.
“O lugar de onde vimos importa. Eu posso apresentar livros em Lisboa, nos Açores, em bibliotecas, em feiras ou em auditórios, mas há uma parte de mim que continua a ser o rapaz de Ermesinde que acreditou que as palavras podiam mudar alguma coisa. Talvez não mudem o mundo inteiro. Mas mudam o mundo de alguém por alguns minutos. E isso já é muito.”
Num tempo em que tudo parece pedir velocidade, Onde a Alma Respira o Vento convida ao contrário: parar, escutar, atravessar o silêncio e permitir que a poesia devolva ao leitor aquilo que tantas vezes a vida apressa. E talvez seja precisamente aí que esteja a força deste livro: na coragem de falar baixo num mundo que insiste em gritar.
Filipe Bacelo chega ao topo da FNAC com um livro de poesia, mas o caminho que o trouxe até aqui começou muito antes dos rankings. Começou em Ermesinde, nas suas memórias, nos seus romances, nas suas perdas, nas suas vitórias, na sua família e nessa vontade antiga de transformar o que dói em palavra.
Filipe Bacelo vai apresentar o seu novo livro na Feira do Livro de Valongo, no Parque Urbano de Ermesinde, dia 5 de julho, domingo, às 17h.



