Municípios do Grande Porto com trajetórias financeiras distintas em 2024: Valongo reforça endividamento, Paredes apresenta rácio superior a 130%, e Maia mantém posição financeira sólida

O Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses 2024, apresentado esta terça-feira, 4 de novembro, no Porto, pelo Centro de Investigação em Contabilidade e Fiscalidade do IPCA, em parceria com a Ordem dos Contabilistas Certificados (OCC) e o Tribunal de Contas, traça o retrato económico-financeiro das autarquias nacionais.

A edição de 2024 — a 21.ª — analisa os indicadores de gestão e sustentabilidade financeira de 308 municípios relativos ao exercício orçamental de 2023, refletindo a evolução de despesa, receita, endividamento e capacidade de investimento.


Valongo: mais despesa e aumento do recurso a empréstimos

Segundo o documento, o Município de Valongo registou em 2023 um património líquido de 275,5 milhões de euros, apresentando dívidas a pagar no valor de 31,97 milhões de euros e um índice de dívida total de 57,0 %.


publicidade
Espaço Publicitário

O quadro “Variação dos Passivos Financeiros – R20” identifica Valongo entre os concelhos com aumento de endividamento líquido, contabilizando +7 542 747 € de variação positiva, o que reflete novos financiamentos contratados no exercício de 2023.

Em matéria de receita, Valongo verificou um ligeiro acréscimo de 0,8 % na cobrança de IMI, passando de 10 328 276 € em 2022 para 10 412 352 € em 2023 (Quadro 2.23, p. 125). A taxa de IMI aplicada foi reduzida de 0,370 % para 0,360 %, o que significa que o aumento da receita decorreu essencialmente da atualização dos valores patrimoniais tributários e não de agravamento fiscal.

O relatório assinala ainda (p. 197, Quadro R31) que Valongo integra o conjunto de municípios com elevada despesa de investimento pago, acima da média nacional, resultado de obras em curso e compromissos plurianuais.


Paredes: endividamento elevado e forte volume de despesa de capital

O concelho de Paredes apresenta, segundo o Anuário (p. 430, Anexo I), um património líquido de 206,2 milhões de euros e dívidas a pagar de 51,25 milhões de euros, correspondendo a um índice de dívida total de 130,9 % — um dos mais altos da Área Metropolitana do Porto.

Estes dados revelam uma pressão significativa sobre a capacidade de financiamento municipal, refletindo a continuidade de projetos estruturantes e o esforço de execução de investimento.

No mesmo quadro de variação dos passivos financeiros (R20, p. 253), Paredes surge com movimentos positivos de endividamento, o que confirma o recurso adicional a empréstimos de médio e longo prazo.

Em contrapartida, o município regista valores elevados de despesa de investimento pago, destacando-se no universo de municípios intermédios pela execução de obras e equipamentos (R31, p. 197).


Maia: solidez financeira e baixa dependência de crédito

A Maia mantém uma situação financeira equilibrada. De acordo com o Anexo I (p. 394), apresenta património líquido de 481,8 milhões de euros e dívidas a pagar de 6,0 milhões de euros, o que se traduz num índice de dívida de cerca de 19 %, um dos mais baixos do distrito.

O município evidencia, assim, capacidade de autofinanciamento e sustentabilidade orçamental, mantendo uma política de contenção do endividamento e elevada execução de despesa corrente.


Matosinhos: robustez económica e investimento estável

Em Matosinhos, o mesmo anexo (p. 399) regista património líquido de 750,3 milhões de euros e dívidas a pagar de 40,17 milhões, valores que refletem a escala e complexidade da gestão municipal.

Embora com dívida superior à da Maia, o município apresenta rácio de endividamento moderado face à dimensão das receitas e investimentos, sendo um dos concelhos com maior volume global de execução financeira na região Norte.


Gondomar: investimento relevante, mas com retração face a 2022

O Município de Gondomar surge no ranking dos 35 concelhos com maior volume de investimento pago (R31, p. 197), com 18 369 234 € em 2023, registando, porém, uma redução de 24,9 % face ao ano anterior (R35, p. 205).

Esta variação reflete o encerramento de obras cofinanciadas e o ciclo de ajustamento pós-fundos comunitários, mas mantém Gondomar no grupo de municípios com maior capacidade de execução de investimento.


Trofa: equilíbrio financeiro e dívida controlada

O perfil da Trofa (p. 424, Anexo I) apresenta património líquido de 142,5 milhões de euros e dívidas a pagar de 9,2 milhões, com um índice de dívida de 36,1 %, o que revela uma situação financeira estável e sem recurso expressivo a crédito.

O município mantém valores de execução moderados e uma estrutura de despesa equilibrada entre funcionamento e investimento.


Notas conclusivas

1. Desempenho Global e Eficiência (Ranking Global R70)

  • Valongo (Grande): Classifica-se em 19º lugar entre os municípios de Grande Dimensão (R70.A).
  • Trofa (Média): Classifica-se em 23º lugar entre os municípios de Média Dimensão (R70.B).
  • Maia (Grande): Apresenta uma excelente eficiência financeira, classificando-se como o 2º melhor município de Grande Dimensão no ranking global do Anuário (R70.A), logo a seguir a Sintra.
  • Matosinhos (Grande): Demonstra boa eficiência, classificando-se em 13º lugar entre os municípios de Grande Dimensão (R70.A).
  • Gondomar (Grande): Encontra-se em 15º lugar no ranking de Grande Dimensão (R70.A).
  • Paredes (Média): Classifica-se em 19º lugar entre os municípios de Média Dimensão (R70.B).

A análise do IPCA e da OCC sublinha, em conclusão (p. 31 do relatório), que “a sustentabilidade financeira municipal depende da capacidade de gerar receitas próprias e da contenção do recurso ao crédito”, salientando que os municípios devem “equilibrar a execução de investimento com a manutenção da autonomia financeira e da solvabilidade”.

Resultados Económicos Líquidos (2024)

A maioria dos municípios apresentou resultados líquidos positivos, exceto Valongo, que se encontra no grupo de municípios com os piores resultados do país.

Fonte: Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses 2024 (CICF/IPCA – OCC – Tribunal de Contas)

MunicípioDimensãoResultados Líquidos (M€)Variação 2023/2024 (%)
MaiaG+16,19 (10º melhor nacional)+20,8%
MatosinhosG+16,68 (9º melhor nacional)+24,6%
GondomarG+22,63 (16º melhor nacional)+45,4%
ParedesM+2,62+15,7%
TrofaM+1,14+7,8%
ValongoG-2,82 (18º pior nacional)-148,0%

Receitas e Investimento (2024)

Os municípios de Grande Dimensão (Maia, Matosinhos, Valongo, Gondomar) destacam-se no volume de receita cobrada e investimento, com particularidades:

MunicípioReceita Cobrada Total (M€)IMI (M€)IMT (M€)Investimento Total (M€)
Matosinhos (G)184,19 (9º nacional)26,28 (10º nacional)28,16 (11º nacional)45,45 (6º nacional)
Maia (G)134,30 (16º nacional)21,4018,8922,55
Gondomar (G)119,08 (22º nacional)17,163,1818,37
Valongo (G)87,58 (31º nacional)10,418,0122,44
Paredes (M)60,107,912,8217,66
Trofa (M)40,855,830,811,95

Destaques de Crescimento (2023/2024):

  • Valongo teve um crescimento significativo na Receita Cobrada Total (+29,6%) e no Investimento Total (+42,6%).
  • Matosinhos destacou-se com um crescimento de Investimento Total (+27,5%).
  • Maia registou um crescimento notável na Receita Cobrada Total (+26,6%).
  • Gondomar teve uma descida no Investimento Total (-24,9%).

Se tem sugestões ou notícias para partilhar relativas à região do Grande Porto, envie para: noticias@jornalnovoregional.pt

Fontes:
Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses 2024, CICF/IPCA, Ordem dos Contabilistas Certificados, Tribunal de Contas.
Citações: Quadro R20 (p. 253); Quadro 2.23 (p. 125); Quadros R31 e R35 (pp. 197–205); Anexo I – Perfis Municipais (pp. 394–430).