DIREÇÃO NORTE Capítulo 0

DIREÇÃO NORTE Capítulo 0 – Aquilo que acontece antes do início 

Era quinta-feira, dia 13 de Fevereiro, quando o autocarro saiu do Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo, com destino a Cusco, no Peru. No total, esperavam-me três dias e meio de viagem. Seriam mais de 3500 quilómetros por terra até ao destino final. Quatro noites seguidas a dormir num banco não muito confortável, num autocarro com mais pessoas e carga do que o permitido por lei, certamente, e a possibilidade de ver os melhores pores do sol da minha vida. Mas esta história começa muito antes desse embarque no Tietê. Talvez possa definir o ponto inicial desta jornada com a compra de um bilhete para uma peça de teatro em Londres, a acontecer no dia 8 de Maio. Sei que à primeira vista estes eventos nada parecem ter em comum, mas têm. Partilham entre si a irracionalidade e impulsividade (embora saudáveis), é certo, mas também o facto de um ter acabado por ditar o outro. 


Voltemos atrás um pouco, então, para melhor se conseguir entender os factos: 


Decidi tirar um ano de pausa da universidade para fazer alguns estágios e ganhar experiência profissional. O pedido foi aprovado pela minha universidade e, depois de vários emails enviados, consegui um estágio de 6 meses em São Paulo. A meio da minha temporada em São Paulo, não tendo voo de regresso, nem ideia de quando regressaria ao Velho Continente, decidi comprar um bilhete para uma peça de teatro em Londres. Porquê?, perguntam: porque queria muito ver a peça. Porquê 8 de Maio? Porque precisei de escolher uma data sob muita pressão e pareceu-me plausível que já estivesse pela Europa nesse dia. Na verdade, não sei se iria estar ou não, caso não tivesse comprado o bilhete, mas, a partir do momento em que o fiz, todos os meus planos foram moldados para que realmente estivesse. Mas então como é que isso nos leva a uma viagem de autocarro de três dias e meio de São Paulo até Cusco? A resposta curta é: porque Machu Picchu existe e fica na América do Sul. 


Machu Picchu sempre me pareceu um daqueles lugares mágicos, mas inalcançáveis, devido à sua distância geográfica de Portugal. Era um sonho, mas sempre sem perspetiva futura de o vir a concretizar. Até que vim para São Paulo. Estando no Brasil, o Peru não é tão longe assim (embora os preços das viagens entre países da América do Sul não se comparem aos preços da Europa) e a viagem a Machu Picchu começou a parecer-me cada vez mais possível e até necessária, visto não saber se regressaria a esta parte do mundo num futuro próximo. Então os planos começaram a formar-se na minha mente. Sabia que teria que sair do Brasil antes de dia 20 de Fevereiro, porque essa era a data limite do meu visto de turista, e sabia também que mal saísse não poderia regressar ao país, porque já tinha prorrogado o meu prazo uma vez. 


Ainda em São Paulo a meio do estágio, e sem planos definidos para a viagem que sabia que ia fazer, comecei a pesquisar formas de regressar à Europa. O primeiro problema surgiu quando percebi que os voos do Peru para destinos europeus eram muito caros, bastante mais do que saindo do Brasil. A solução foi pesquisar então voos saindo de outros destinos e aproveitar para fazer uma viagem maior. Ao testar várias possibilidades (e diga-se: num golpe de imensa sorte), encontrei voos ridiculamente baratos de Nova Iorque para Londres no final de Abril e início de Maio. Comprei imediatamente, porque sabia que aqueles preços iriam mudar drasticamente caso hesitasse. Então, nesse momento, para além de um bilhete para uma peça em Londres no dia 8 de Maio e muita vontade de ir ao Peru, passei também a ter um voo de Nova Iorque para Londres no dia 4. Não tinha: 1) uma forma de chegar de São Paulo ao Peru; 2) planos para os dois meses e meio entre a saída do Brasil e o voo para a Europa, e 3) alguma forma de chegar a Nova Iorque. Mas pareceu-me estar numa ótima situação e estava muito feliz com toda a incerteza que me rodeava. 


Saltemos então novamente até ao Tietê, em São Paulo, e àquele dia do embarque em direção ao Peru. Estava muito entusiasmada com tudo o que poderia acontecer na minha vida a partir daquele momento e, admito, um pouco receosa também, em relação a passar tanto tempo seguido sentada num autocarro. Mas a motivação superava todos os receios e cheguei à estação com bastante tempo de antecedência. Tinha comprado o bilhete uma semana antes, depois de ter lido na internet umas matérias sobre o assunto e me ter parecido ser uma experiência incrível, por tudo o que englobava. O autocarro foi uma escolha feita pela aventura em si e pela possibilidade de ver todas aquelas paisagens e os contrastes gritantes da América do Sul. Em termos financeiros, não fica muito mais barato do que voar diretamente até ao destino, especialmente tendo em conta que se tem de pagar por todas as refeições feitas durante o percurso. Portanto, esse nunca teria sido o fator decisivo. Na verdade, somando tudo e tendo em conta o tempo que se demora, penso que compensa mais (financeiramente falando) comprar um bilhete de avião com antecedência. No meu caso, tempo era o que mais tinha, e queria realmente experienciar aquela que é umas das viagens de autocarro mais longas do mundo (a mais longa é feita pela mesma empresa e vai do Rio de Janeiro até Bogotá, na Colômbia). 
O autocarro atrasou mais de uma hora. Mesmo antes do embarque, conheci dois brasileiros, ambos chamados Leandro, que (spoiler alert!) se tornariam figuras fulcrais nesta minha viagem. Éramos os únicos turistas à espera para entrar no autocarro, por isso facilmente nos reconhecemos e alguém iniciou conversa. Embarcamos. Encontrei uma entrada no meu “diário de bordo” desse dia, às 17h24, que diz o seguinte: “O autocarro não é muito confortável, está cheio e sujo, mas eu estou feliz. E os meus novos amigos vão para Cusco também, por isso a vida é boa.” Desconhecia o que estaria prestes a viver, é certo, mas sabia, porque o sentia, que a vida é boa. E isso é certo. A vida é boa e estava tudo a começar.