Crónica de Viagem DIREÇÃO NORTE Capítulo I – De São Paulo a Cusco por terra

Saída de São Paulo: Quinta-feira, 13 de Fevereiro, 16h30

Chegada a Cusco: Segunda-feira, 17 de Fevereiro, 4h30 (ou 6h30, horário de Brasília)

Há muitos anos, o Jorge Palma ensinou-me que eu posso chegar onde quiser, mas que tenho de gozar bem a minha rota. E foi com isso em mente que comprei o bilhete de autocarro e embarquei assim nesta viagem de quase 86 horas por terra, entre o Brasil e o Peru. 

Já estávamos há mais de 24 horas na estrada. A primeira noite tinha sido bem fria e a manhã muito quente. Acordei coberta com uma manta de Inverno que uma senhora peruana, sentada junto a mim, quis partilhar comigo, e esse gesto aqueceu-me mais do que qualquer têxtil. 

A primeira paragem do segundo dia foi numa cidade quase deserta de nome Sonora, perto da fronteira entre Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, para almoçar e tomar o primeiro banho da viagem. Foi-nos pedido 5 reais para aceder a um balneário onde podíamos então tomar esse banho, que, apesar das condições precárias do espaço, nos soube demasiado bem. É engraçado como não damos valor a essas coisas simples, que tomamos como garantidas, até sermos privados das mesmas. Durante toda a viagem, parávamos 2 vezes por dia. A primeira, por volta da hora de almoço, para almoçar e tomar banho, e a segunda, no final do dia, para jantar e escovar os dentes. Em todas as paragens, encontrava-me com os Leandros, e íamos falando sobre planos para Cusco e para a viagem no geral, e sobre o que nos tinha trazido ali, àquele autocarro que partilhávamos. 

À medida que íamos avançando na estrada, as condições para tomarmos banho iam também diminuindo, tendo o último sido nas traseiras de um restaurante, num cubículo que era uma espécie de cabine de duche improvisado, com uma palete de madeira no chão, algo como uma torneira na parede e uma sanita, tudo no espaço de cerca de 1 m2.

O terceiro dia começou no estado de Rondônia, o estado com as paisagens mais bonitas da viagem e com as estradas em piores condições. Talvez não seja coincidência. A vegetação era imensa e às vezes parecia que estava realmente num filme. A estrada não era muito movimentada e poucos eram os carros particulares que se cruzavam connosco. Víamos muitos camiões de carga e alguns, mas bastante menos, autocarros. À noite, depois de um percurso bastante atribulado devido às condições da estrada, apanhamos um ferry boat para atravessar o Rio Madeira, que divide a estrada BR 364, e por breves instantes, passamos pela Bolívia, já que uma parte do rio lhes pertence. A travessia foi bonita, com um dos céus estrelados mais bonitos que tive a oportunidade de ver, e os reflexos das luzes na imensidão da água.

No Domingo, acordamos no Acre, um dos estados menos conhecidos do Brasil, que faz fronteira com o Amazonas, com Rondônia e também com a Bolívia e com o Peru. De manhã bem cedo, começou a cair água em alguns assentos do autocarro, incluindo o meu, devido a um problema com o ar condicionado. E, mesmo depois de bastantes reclamações, com imensa gente completamente encharcada, o problema só foi resolvido depois de passada a fronteira. 

Por volta das 10h, chegamos ao posto da Polícia Federal Brasileira na fronteira com o Peru, onde tivemos de responder a algumas perguntas e sair oficialmente do país, carimbando o passaporte. A fronteira não me pareceu ser nada vigiada, não havendo ninguém fora do posto para mandar parar os veículos que passavam. Era como se parar ali para carimbar o passaporte fosse algo voluntário, feito apenas para evitar problemas burocráticos futuros. A 15 minutos dali, encontrava-se o posto da Polícia Peruana, um pequeno escritório escuro e muito quente, numa rua bastante movimentada, cheia de restaurantes, lojas de câmbio e tudo o que se pode esperar de uma vila fronteiriça. Aí as perguntas foram ainda em maior número e o procedimento mais rigoroso. Depois de ser submetida a uma espécie de interrogatório, foram-me dados 60 dias para ficar no país, sendo que a um casal colombiano que tinha ido antes de mim, e que tinha pedido um mês, só foram concedidos 14 dias. É em situações destas que se entende o quanto aquele pedaço de plástico e papel, a que chamamos passaporte, influencia a nossa vida, e quão privilegiados são os europeus. 

Tínhamos entrado oficialmente no Peru e o Brasil tinha ficado para trás. Estava um pouco nostálgica por ter saído do Brasil depois de 6 meses e ter terminado assim esse meu primeiro ciclo em terras Tupiniquins, mas também muito motivada para seguir em frente e ver onde esta estrada me levaria. 

A parte já em terras peruanas do último dia completo de viagem foi a mais difícil de superar, em termos psicológicos, por saber que já nos encontrávamos muito perto do destino final. A paisagem mudou bastante, as pequenas vilas que atravessávamos eram já bem diferentes e as estradas ligeiramente melhores, se comparadas com as do Acre ou de Rondônia, especialmente. 

Entretanto, às 4h30 (horário do Peru) de segunda-feira, dia 17, chegamos a Cusco, e deixamos o autocarro que nos serviu de casa durante três dias e meio e que seguiria para Lima. Como só tinha reservado um hostel para a noite de segunda para terça, decidi ir com os Leandros para o hostel onde estariam hospedados e comprar o equivalente à noite de domingo para segunda, para conseguir dormir um pouco nessa madrugada e tomar um tão esperado banho em condições minimamente decentes. Acabei por decidir mudar-me completamente para aquele hostel, por já estar ali e ter gostado, e para conseguir ficar com os meus novos amigos e mais recentes companheiros de viagem. Dormimos como bebés naquela primeira noite numa cama, depois das intermináveis horas a dormir num assento do autocarro, e aquele banho num sítio limpo foi um dos melhores que tomei em toda a minha vida. Em relação à travessia, apesar de ter sido muito agridoce, o que fica é sempre uma memória bonita. Ainda bem que a fiz. Ainda bem que pude viver aquilo. Ainda bem que aconteceu. Talvez não a repita, principalmente num futuro próximo, mas certamente que a faria novamente pela primeira vez. As memórias das cores daqueles finais de dia pelas estradas brasileiras serão eternas e inigualáveis e nenhuma viagem de avião, por mais bonita, rápida e confortável que fosse, me conseguiria oferecer isso.