Um jovem de Rebordosa, Luís Moreira, criou uma marca de óculos, WxW, com um design capaz de ter sucesso em Portugal e no mundo.
O Jornal Novo Regional falou com Luís Moreira para saber mais sobre este projeto e sobre os objetivos pretendidos.
P – Como e quando nasceu a ideia de criar uma fábrica de óculos em Rebordosa?
R – Nasceu de uma inquietação. De perceber que Portugal tinha uma tradição lindíssima no fabrico de óculos e que, aos poucos, essa arte estava simplesmente a desaparecer. O saber das mãos, o detalhe, a precisão… tudo isso estava a perder-se.
E eu senti que seria um desperdício deixarmos morrer algo que é nosso.
Rebordosa, terra onde se respira trabalho manual e dedicação, foi o lugar onde esta vontade ganhou forma. A partir de 2021 comecei a estudar o setor a fundo, a visitar fábricas lá fora, e percebi duas verdades: que Portugal tem capacidade para competir com os melhores do mundo, e que alguém tinha de assumir essa missão.
A Wonderoptic nasce precisamente dessa responsabilidade: recuperar uma herança quase perdida e elevá-la ao nível de Itália e, principalmente, Japão.
P – Qual a experiência e/ou formação que tem para avançar o projeto?
R – A minha formação em Engenharia e Gestão Industrial deu-me as ferramentas. Mas foi a vida que me deu o propósito.
Cresci dentro de uma família que dedicou décadas à óptica, e desde cedo percebi o impacto que um par de óculos tem na vida de uma pessoa. É conforto, confiança, identidade.
Aprofundei o fabrico artesanal de acetato, aprendi máquinas, técnicas, processos… mas acima de tudo aprendi respeito. Respeito pelo trabalho das mãos, pelo tempo que cada peça exige e pela responsabilidade de continuar uma tradição que estava a desaparecer.
A minha experiência é técnica, mas a motivação é profundamente pessoal.
P – O design é um fator importante para o sucesso do produto?
R – É mais do que importante — é alma.
O design é a primeira forma de contar uma história, de mostrar caráter, de afirmar identidade.
Mas para nós, design não é inventar algo novo só porque sim. É honrar a tradição portuguesa, é transformar herança em modernidade.
Cada modelo é pensado milimetricamente: a proporção, o conforto, a presença. Carrega a simbologia da vitória, do esforço e da superação que define a WxW.
É isso que nos permite olhar para os gigantes internacionais sem medo: porque não estamos apenas a fazer óculos — estamos a fazer identidade.
P – Como tem sido a resposta dos clientes?
R – Tem sido surpreendente e profundamente motivadora.
Muitos dizem-nos: “Não parece português.”
E, apesar de essa frase revelar um preconceito antigo, ela também mostra que estamos a quebrar barreiras. Quando tocam no acetato, quando veem o brilho do polimento ou o rigor da construção, percebem que Portugal consegue — e merece — estar entre os melhores.
Esse reconhecimento tem sido um combustível enorme. Prova que vale a pena lutar por algo que estava a desaparecer
5) A experiência dos meus pais na área da visão foi importante a que nível?
Foi essencial, e não apenas tecnicamente.
Os meus pais construíram um grupo de óticas do zero, com trabalho e resiliência. Cresci a vê-los transformar vidas através de um par de óculos.
Isso ensinou-me que a visão não é um produto — é cuidado.
E ensinou-me, também, como nos fez falta ter produção nacional durante tantos anos.
Essa consciência acendeu em mim o compromisso de trazer de volta aquilo que Portugal nunca deveria ter perdido: a capacidade de criar com as próprias mãos.
P – O escoamento do produto é apenas para a cadeia Opticalia?
R – Não. A Opticalia faz parte da minha história familiar, mas a WxW nasce com destino próprio.
O nosso objetivo é elevar Portugal no mapa mundial do eyewear artesanal. Queremos estar em óticas selecionadas, em mercados internacionais, em mãos que reconheçam e valorizem o toque humano que cada peça carrega.
A marca é portuguesa, mas a ambição é global.
P – Quais são os objetivos da marca a curto, médio e longo prazo?
R – A curto prazo os objetivos são:
- Reavivar a tradição portuguesa de fabrico de armações.
- Consolidar a produção artesanal dentro de portas.
- Levar a marca a óticas que valorizem qualidade e identidade.
A médio prazo:
- Mostrar ao mundo que Portugal consegue competir com os melhores.
- Aumentar produção mantendo a alma artesanal intacta.
- Entrar em mercados internacionais através de distribuidores especializados.
E a longo prazo:
- Transformar a WxW num símbolo global de luxo artesanal português.
- Elevar a Confortexótico ao patamar das melhores fábricas italianas e japonesas.
- Criar em Rebordosa um ecossistema industrial que forme profissionais e renasça um setor que quase desapareceu — e que merece viver para sempre.



