Durante quase meio século, Portugal viveu sob a sombra da ditadura salazarista. Era um país de silêncios forçados, de censura cortante, de liberdades amordaçadas. A cultura, a opinião, a organização livre estavam submetidas ao controlo do Estado Novo. Mas mesmo nesse tempo sombrio, havia espaços onde a liberdade respirava — ainda que discretamente. Esses espaços chamavam-se associações.
As coletividades populares, muitas vezes centradas no recreio, no desporto, na música ou no teatro amador, foram muito mais do que aparentavam. Serviram de refúgio à criatividade, ao pensamento crítico e, sobretudo, à convivência livre entre pessoas que ousavam pensar e agir para além das fronteiras impostas pelo regime. Em salões de associações discutia-se o que não se podia dizer na praça pública. Nos grupos de teatro encenavam-se metáforas de resistência. Nas bandas filarmónicas, nas marchas populares, nos grupos corais, encontrava-se uma forma de afirmação comunitária que escapava — ou desafiava — a rigidez oficial.
Nem sempre era fácil. A Polícia Política vigiava, infiltrava e reprimia. Havia associações encerradas, dirigentes perseguidos, iniciativas culturais canceladas. Ainda assim, persistiram. E esse capital de organização, de participação cívica e de resistência silenciosa revelou-se essencial após o 25 de Abril de 1974.
Com a revolução, as associações foram chamadas a um novo papel: reconstruir o país, devolver a voz às comunidades, promover a cidadania ativa. Muitos dos primeiros autarcas democráticos, muitos dos líderes comunitários, tinham raízes no associativismo. Trouxeram com eles uma experiência prática de gestão, de mobilização e de solidariedade — adquirida nos tempos difíceis da ditadura — que foi fundamental para erguer a democracia local.
Ainda hoje, muito do que somos como sociedade livre deve-se à teimosa existência das associações em tempos de repressão. Elas ensinaram-nos a valorizar o coletivo, a escutar o outro, a agir em conjunto. São herdeiras de uma história de resistência e, ao mesmo tempo, construtoras do futuro.
Por isso, falar de associativismo não é falar apenas de cultura, desporto ou lazer. É falar de liberdade. É recordar que a democracia também se faz em assembleias de sócios, em palcos improvisados, em pavilhões. É afirmar que um povo organizado é um povo mais forte. E que a liberdade, para florescer, precisa de raízes profundas — como aquelas que as nossas associações ajudaram a lançar. Mantenhamo-nos fortes e persistentes.
Pelo Movimento Associativo Popular e Voluntário. Pela cultura, arte, recreio, desporto e solidariedade promovidos pelas nossas associações. Por Alfena, Ermesinde, Campo e Sobrado, e Valongo.
Joana Ribeiro Fitas
Presidente da ACCV
Associativismo em Valongo 11: Associações: Sementes da Liberdade


