Irmãos Moreira: 300 anos a produzir pão

Trabalho académico de Margarida Alves Nogueira
A frequentar o Mestrado em Jornalismo na NOVA FCSH – Lisboa. 

São 15:30 acabou de sair a primeira carrinha cheia de pão. A primeira carrinha da segunda
fornada de pães feita do dia. A Padaria Irmãos Moreira produz pão há cerca de 300 anos.
Muito mudou mas o pão da padaria é o mesmo.
Margarida Alves Nogueira
Sente-se o cheiro a pão acabado de ser feito. Na mesa farinhenta, repousam os pães que ainda
faltam cozer. No teto, nota-se o preto criado pelos fumos do forno. O forno a lenha embutido
na parede é o original da casa. Na entrada, uma mesa e um grande balcão. Várias caixas de pão
saído do forno encontram-se em cima do balcão para venda. A fábrica e o ponto de venda são
separados por uma parede, os clientes tocam à campainha para comprar pão acabado de
cozer.
Bruno e Bruno ( Júnior), tio e sobrinho, colocam o pão no forno a lenha para cozer, um dos
membros da distribuição, Pedro Moreira, espera para carregar a sua carrinha. “A primeira já
saiu. Esta é a segunda carrinha da tarde. Três e qualquer coisa sai a primeira”, diz Fernando
Pimenta, trabalhador da Padaria. Pedro Moreira é, também, um dos proprietários da padaria,
juntamente com a mãe e a irmã, Cândida e Filipa Moreira.
A padaria está na família desde o século XVIII e desde então tem passado de geração em
geração. No batente da porta lê-se 1732, ano de construção da casa e da padaria.
A dupla de padeiros passa os pães dos tabuleiros para tábua de madeira que vão ajudar a
colocar os pães no forno. “ É um forno fundo, tem de ser para caber os pães todos”, diz Bruno
Alexandre. Usam o forno a lenha para manter a tradição, conta Fernando Pimenta: ”Se tivesse
de comprar um forno, já estava a se comprar um, só que perdia valor. Mas isto é o mesmo
início. Isto aqui é a tradição. Isto é o que fazemos.” As máquinas são as mesmas desde que
Bruno Alexandre começou a trabalhar lá aos 17 anos. Passaram 30 anos e também o processo
de fazer pão se mantém.
Valongo, cidade onde se encontra esta padaria, foi o principal fornecedor de pão para a cidade
do Porto, no início do séc. XVI. O trigo chegava à cidade do interior transmontano. Nas
margens do rio Ferreira, moinhos que transformavam o trigo em farinha. Depois de
confeccionada e cozida, era levada em carros de bois para ser vendida aos portuenses.
Em 2015, a Câmara Municipal de Valongo criou uma rota por todas as padarias e biscoitarias da
cidade, a “Rota Histórica das Padarias e Biscoitarias de Valongo”. Colocando placa sinalizando o
ano de fundação de cada uma a câmara, enaltecendo o patrimônio da cidade. Na placa da
Padaria Irmãos Moreira, lê-se “Padaria séc. XVIII”.
Como algumas padarias da zona ainda fazem a venda ambulante, “há pessoal que fica à espera
mesmo que chegue”, partilha o senhor Pimenta. Pedro Moreira sabe que daqui a uns minutos
vai sair para ir entregar e vender o pão ainda quente pelas freguesias vizinhas. Para além deste
tipo de venda, vários clientes entram para comprar pão, tocam à campainha para chamar os
trabalhadores que encontram do outro lado da parede.
A Padaria Irmãos Moreira dedica-se à produção de pão. Ocasionalmente fazem pão de forma,
pão com chouriço e lanches. É aos sábados e feriados que se produz a regueifa, o pão
tradicional do concelho. “Ao sábado faz-se tudo conforme, o que aqui está ser feito, mais
regueifa e às vezes bolos”, diz Pedro Moreira.
São 16:00, Bruno Sousa começa a preparar mais massa. Mais quatro tabuleiros de 140 pães
cada. Só falta marcar. “Marcar é fazer aquela abertura em cima. As outras [padarias] fazem à
faca, nós aqui fazemos à mão”, explica Bruno Alexandre. Pedro Moreira com a carrinha
carregada sai para a rua, pela segunda vez, só regressa a casa pelas 20:00, ou “quando o pão
acabar”, como explica Fernando Pimenta.
Esta vai ser a última fornada do dia. Ainda falta uma carrinha chegar para voltar a sair
carregada. “Três horas para fazer o pão, às quarto sai uma carrinha [Pedro] e às 17:20 sai a
última”, conversam Fernando Pimenta e Bruno Alexandre.
Entre a preparação do pão, falar sobre o trabalho e recordar tempos antigos, os trabalhadores
e os donos do negócio trocam provocações amigáveis. Observa-se um ambiente de verdadeira
família. “Isto aqui é como uma família, sempre na brincadeira”, conta Fernando Pimenta.
“Cinco minutos para aquecer a caldeira”, anuncia Bruno Alexandre a Bruno Sousa que está a
acabar de preparar a última fornada. Enquanto espera, relembra o seu percurso na padaria.
“Estive 3 anos durante as férias da escola, depois do São João, começaram as férias.” Durante
os meses mais quentes, trabalhava na padaria, ajudava também aos sábados das 6 da manhã
até às 6 da tarde.
Agora fazem cerca de 6000 pães por dia, “A melhor época foi mesmo na pandemia, a pandemia
até foi uma boa época”, diz Fernando Pimenta. Na época em que alguns negócios da cidade
fecharam, a Padaria Irmãos Moreira teve muito movimento, por vezes, difícil de satisfazer
todos os clientes. Agora, os dias mais difíceis são o Natal, a Páscoa e o Ano Novo. “O dia 24 é um
dia complicado, das 3:00 até as 18:00, são dois dias num”, conta Bruno Alexandre.
Tudo pronto para ir para o forno. “É só meter aquilo e está feito”, diz Bruno Sousa ( Júnior). São
17:00, chegou o último motorista. Às 17:20 sai para vender a última fornada de pão do dia. A
Padaria fica aberta até às 20:30: “As pessoas saem do trabalho e passam para levar pão.
Amanhã cá estaremos às 8:00”-

Foto: ADR/JNR