José Augusto Santos, de atleta a comentador

O valonguense José Augusto Santos respira futebol. Foi atleta, treinador e, enquanto não encontra um projeto que ache interessante, exerce as funções de comentador em relatos de jogos em várias rádios.

Como jogador representou F.C. Porto, Valonguense, Ovarense, Ermesinde, Varzim, Pedrouços e Castêlo da Maia.
Foi campeão nacional de Juvenis pelo FC Porto e da Série B da III nacional pelo Valonguense. Como sénior jogou sempre na II e III Divisão nacional. Teve inúmeros convites de clubes da I Divisão. Diz José Augusto que “quase todos, à exceção do FC Porto, no Norte, me convidaram. Foi o caso do Boavista, Paços de Ferreira, Penafiel, etc. Também o Marítimo e inclusive o Sporting, quando Jonh Toshack era o treinador e Pedro Gomes o adjunto, queriam que fosse fazer uma semana de treinos em Alvalade, que recusei. A minha opção foi conciliar o futebol com o meu emprego na Câmara Municipal de Valongo. Mas reconheço que é uma lacuna na minha carreira. Deveria ter jogado na I divisão, pela experiência e até para o curriculum para a minha carreira de treinador”.
O gosto pelo futebol surgiu na escola. Jogava muitas vezes no rinque de patinagem que era em frente à delegação de saúde onde a mãe trabalhava e onde existia a Praça de Táxis. “Um taxista, José Barreiras que era um grande benfiquista, dizia que preferia ficar a ver-me jogar do que fazer uma corrida e falou com o meu pai que me levava de táxi ao campo da Constituição para fazer treinos de captações. A realidade é que me levou e nesse mesmo treino fui convidado para ir para o Porto”, contra José Augusto Santos.
Como treinador José Augusto esteve no Ermesinde 4 épocas. Começou a treinar os iniciados do Ermesinde por convite do então presidente João Silva que era assessor do presidente da Câmara de Valongo e estava com dificuldades de arranjar treinador para aquele escalão. Refere o atual comentador que “tinha o 1º Nível que tirei com 26 anos, na altura não estava a pensar treinar. Respondi que tentasse arranjar outro e se não conseguisse que me voltasse a falar. Não arranjou! Fui treinar! Os miúdos eram muito bons! Fizeram de mim treinador. Depois de 5 derrotas nos primeiros 5 jogos só tivemos mais uma ou duas derrotas, acabamos por vencer a prova extra onde derrotamos o Rio Ave na final. Passei a coordenador da formação e depois porque o Ermesinde tinha enormes dificuldades financeiras, passei aos seniores. A direção era composta por diretores da formação e apostaram em mim, porque me conheciam e conheciam o trabalho que desenvolvia. Não tinha o 2º Nível de treinador. O meu adjunto Professor Paulo Mesquita tinha e nessa época tirei em Braga o curso. As duas épocas no Ermesinde foram um sucesso. O presidente do Aliados de Lordelo convidou-me. Estive 4 épocas com 2 meses de interregno. No Aliados subimos à II Nacional, fomos à fase de subida na II divisão e na Taça de Portugal chegamos aos 1/8 de Final depois de eliminar o Leixões então na I Divisão. Do Aliados saí para o Famalicão onde voltamos a subir de divisão e na Taça só caímos em casa com o Sporting, depois de eliminar o União da Madeira no Funchal. Depois treinei o Lousada 3 meses. O Lousada estava em 2º lugar a 1 ponto do 1º sem derrotas mas a debandada de jogadores por terem ordenados em atraso fez com que optasse por sair. Fui para o Varzim e não conseguimos ficar na 1ª fase nos 2 primeiros. Estávamos em 3º lugar quando a direção optou por trocar de equipa técnica. Treinei o Sobrado na única presença do clube no CNS em que não desceu de divisão. A vitória no último jogo em casa, completamente cheia, com o Espinho é inesquecível. Do Sobrado transitei para o Varzim B onde ajudamos a promover jogadores como Keaton Parks, que jogou no Benfica, Rui Costa que jogou no Porto entre outros. Depois regressei a Lordelo numa fase em que o clube estava em dificuldade, por amizade e consideração por alguns amigos da terra. Conseguimos o objetivo da manutenção”.
Acrescenta José Augusto Santos que “as minhas equipas técnicas tiveram muito êxito desportivo com subida de divisão e participações muito interessantes na Taça de Portugal, mas a realidade é que nunca tive convites de projeto consistente de divisões superiores. Existiram abordagens mas a realidade é que por este ou aquele motivo acabava por não ser convidado.
A realidade é que a minha vida foi dividida entre alegrias nos relvados e tristezas nos gabinetes, mas prefiro não falar dos problemas que os clubes que treinei atravessavam. Prefiro recordar a parte boa dos grupos de trabalho que conseguimos contruir que nos levou a ultrapassar dificuldades enormes a todos os níveis. Mas a realidade da maioria dos clubes portugueses é de enorme dificuldade”.
Questionado sobre os clubes que o marcaram enquanto jogador, José Augusto responde que “foram o Valonguense, clube do meu coração e onde joguei 13 épocas quase todas com algum êxito, relembro a subida à II Divisão Nacional e o ano em que fomos aos quartos de final da taça, feito que só três equipas da III Nacional conseguiram na história do futebol e o Ermesinde que tinha forte mística. Foi no ano do arrelvamento do Estádio dos Sonhos e apesar das dificuldades por jogarmos a 1ª volta praticamente toda fora, conseguimos pela 1ª vez a manutenção do clube na II Divisão Nacional. Era um clube com uma mística e uma massa associativa exigente e aguerrida. No início tive uma relação difícil com os adeptos mas depois eles adoravam o meu futebol e esqueceram a rivalidade com o clube (Valonguense) de onde eu transitei. Como jogador cumpri o sonho do meu pai que queria que eu jogasse no F.C. Porto e Valonguense, clubes do coração e no Varzim que é o clube da sua terra”.
Já como como treinador, José Augusto diz que “naturalmente que não esqueço o 1º ano de treinador nos Iniciados do Ermesinde, mas subidas de divisão no Aliados de Lordelo e no Famalicão e as eliminatórias da Taça de Portugal, tornam marcante a passagem por esses clubes. Também a manutenção no CNS do Sobrado naquele inesquecível jogo com o Espinho ficará na memória de todos os sobradenses”.
Sobre a situação do futebol no concelho de Valongo, o nosso entrevistado diz que “sofreu uma crise motivada pela falta de visão de futuro da maioria dos responsáveis dos clubes que olharam muito para os resultados desportivos das suas equipas seniores e se esqueceram de criar estruturas para que os clubes tivessem condições para fazer uma aposta sustentada na formação a médio prazo tornasse as equipas ao nível sénior mais competitivas. Atualmente os clubes estão em retoma atendendo que o Sobrado, o Ermesinde, o Valonguense e o Campo tem novos relvados sintéticos que permitem que o trabalho desenvolvido na formação possa começar a dar frutos. Para isso acontecer naturalmente que os clubes tem de se organizar bem e ter qualidade ao nível dos dirigentes e das equipas técnicas. Adequar as características dos treinadores aos escalões de formação é determinante para a execução de bom trabalho com os jovens jogadores.
Falando só do futebol sénior o Ermesinde e o Sobrado estão num patamar razoável de competição, a divisão de elite, têm bons planteis e equipas técnicas e atingirão com facilidade o objetivo da manutenção. O Alfenense, a militar na divisão de Honra da AFP, é o clube do concelho com melhores instalações, poderá e deverá tentar a subida de divisão, tal como o Valonguense e o Campo que jogam na I divisão, também dão indicações que podem subir de divisão porque tem um bom conjunto de jogadores e equipas técnicas de qualidade. Penso que o Valonguense joga numa divisão nada de acordo com o historial do clube e deverá no mínimo jogar na Divisão de Elite. O Ermesinde também penso que poderá atingir os campeonatos nacionais a breve prazo. Aliás faz falta ao concelho um clube que possa competir nos campeonatos nacionais, que participe na Taça e pontualmente possa fazer a festa da Taça jogando com um grande do futebol português”.
Como já se escreveu atrás, José Augusto Santos não está a treinar atualmente. Sobre este assunto diz que “as propostas que me têm feito não se enquadram no que pretendo para a minha carreira de Treinador. Tenho o IV Nível de Treinador de Futebol UEFA –PRO e eventualmente atendendo ao trabalho que as minhas equipas técnicas desenvolveram nos clubes que passamos, justificávamos uma oportunidade nos campeonatos profissionais, mas a realidade é que essas propostas não surgem. O futebol a esse nível tem englobada a componente negócio é dominada por agentes do futebol e provavelmente nunca surgirá essa oportunidade. Não abdico da minha forma de estar na vida e no futebol mas naturalmente gostaria de regressar ao ativo, mas só o farei se for num clube com objetivos”.
E surge assim a função de comentador. Diz José Augusto “como não tenho treinado tenho feito comentários na Rádio. É uma experiência interessante, obriga-me a observar os jogos, como o fazia como treinador, mas sem ser eu a tomar decisões. O comportamento das equipas e dos jogadores nos mais variados itens do jogo, a componente tática, a organização ofensiva e defensiva, os momentos de transição, os esquemas táticos (bolas paradas), a reação ao golo marcado ou sofrido, que é determinante atualmente nos jogos, são aspetos que me fascinam e me dão prazer comentar. A análise aos árbitros, a influência dos adeptos no jogo. É super interessante e tenho gostado da experiência de comentador”.
Comentar pode ser interessante, mas nada de compara à adrenalina do banco, a planificação dos treinos, a decisão ao momento, o calor do jogo. Venha por isso o convite de um projeto a sério, consistente e planeado para que José Augusto Santos regresse aos treinos.

Be the first to comment on "José Augusto Santos, de atleta a comentador"

Leave a comment

Your email address will not be published.


*


Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.