“Alto Relevo” explora em Espanha

No passado mês de Junho a Secção de Espeleologia do ALTO RELEVO – Clube de Montanhismo (ARCM) (Associação com sede em Valongo) levou a cabo mais uma edição do Projeto Mais Além.

Este é um projeto criado em 2011 que pretende desafiar os espeleólogos do ARCM, possibilitando a exploração de cavidades maiores e com diferentes características das existentes em Portugal, levando-os sempre mais além. A título de exemplo, no âmbito deste projecto o ARCM já explorou várias cavidades tais como a Sima Covanegra com um total de 2,10km de desenvolvimento e uma profundidade máxima de -81m, a Cueva de Piscarcianos com 14,64km e -105m de profundidade, ou o Sistema la Gândara com os seus impressionantes 113,42km de extensão máxima e uma profundidade de -814 m, entre outras.
Todas estas cavidades se encontram na região de Burgos na Cantábria no norte de Espanha. Este é o local onde o ARCM tem ido, estabelecendo a sua base na sede da associação espeleológica local, o Grupo Espeleológico de Merindades em Santelices.
As cavidades a explorar este ano foram a Torca de los Morteros com 12,30km de desenvolvimento e uma profundidade de -453m e a Cueva Coventosa com 34,01km e -815m de profundidade.

Convém explicar, aos menos familiarizados com o tema, que as grutas e algares são cavidades naturais predominantes em zonas calcárias, formadas ao longo de milhares de anos através do processo de erosão e dissolução que a água provoca quando em contacto com este tipo de rocha. Assim surgem as mais variadas galerias e salas, bem como variadíssimos espeleotemas como as famosas estalactites e estalagmites, mas também outros menos conhecidos como as colunas, bandeiras, excêntricas, etc.
Na edição deste ano do Projecto Mais Além a equipa de espeleólogos era constituída por nove elementos devidamente credenciados e federados. A expedição teve a duração de quatro dias, de 15 a 18 de Junho, sendo dois destes dias para as deslocações e os outros dois destinados às cavidades.

O início da aventura

No primeiro dia de atividade, dia 16, a equipa partiu bem cedo do abrigo rumo à primeira cavidade, a Torca de los Morteros. Assim que chegamos ao local, ou até onde os carros podiam ir, começámos por nos equipar, preparar o material individual e colectivo e depois foi necessário realizar uma caminhada de montanha de aproximação à cavidade de cerca de 30 minutos.
A Torca de los Morteros é uma cavidade cujo desenvolvimento é dividido em cinco níveis mas nesta exploração só foram percorridos os níveis um e dois. A entrada deu-se por volta das 10h da manhã com uma descida vertical de um algar de 30m de profundidade. Neste ponto o grupo dividiu-se em duas equipas tendo uma delas, constituída por dois elementos, ido equipar o acesso ao segundo nível enquanto o restante grupo progrediu pelo nível um. Importa aqui salientar que esta cavidade já tinha sido visitada no ano anterior por quatro elementos do ARCM, a título preparatório, para procurar os respetivos acessos entre os níveis e registar as condições da cavidade e equipamento técnico necessário para a progressão deste ano.
As equipas voltaram a reunir-se, terminaram a progressão do nível um e passaram para o nível seguinte. Depois de explorados os níveis que estavam programados para este ano, iniciou-se o regresso à superfície depois de 10h no interior desta gruta. A chegada à superfície de todos os elementos deu-se por volta das 20h depois regressamos ao abrigo onde tivemos o merecido banho e jantar para de seguida prepararmos o equipamento para o dia seguinte.

No segundo dia de atividade, dia 17, rumamos à Cueva Coventosa. Depois de uma viagem de mais de uma hora de carro, equipámo-nos, desta vez com algum peso extra: além do material habitual, todos teríamos de carregar os fatos de neoprene para a travessia de lagos no interior da cavidade. A aproximação até à Cueva fez-se por um pequeno trilho bem definido onde a abrupta descida de temperatura denunciava a entrada do nosso destino.
A câmara da entrada era grande (do tipo lapa) e entra-mos nesta progredindo a pé. Já ao aceder ao interior da gruta foi necessário transpor uma passagem bastante mais estreita do que a câmara anterior (com abertura para o exterior) e a primeira sala já no interior da cavidade. Esta morfologia faz com que haja fortes correntes de ar nestas passagens mais “estreitas” devido às diferentes temperaturas entre o interior e o exterior da cavidade. Verifica-se este fenómeno em muitas grutas, mesmo no seu interior e é usado como ferramenta de exploração para se encontrarem novas passagens, galerias e salas.
Já no interior, foi necessário transpor um ressalto com -20m (R20) que deu acesso à restante cavidade. Durante toda a progressão, pudemos ver a grandiosidade da cavidade através das suas enormes galerias e salas com vários espeleotemas que só em cavidades com estas características podem ser vistos. A progressão foi mais técnica do que a cavidade do dia anterior pois era preciso transpor alguns lagos e gours tal implicou o uso de cordas.

No fim da progressão planeada e depois de todos reunidos, estávamos perante os três lagos da zona final. Dado o adiantado da hora, decidimos dividir o grupo em duas equipas: uma de quatro elementos que transpôs os lagos a nado usando os fatos de neoprene de 5mm; e uma outra equipa que começou a fazer o caminho de regresso à superfície, já que a exigência técnica nos obrigou a optimizar o tempo de regresso. Esta cavidade faz parte de um sistema mais complexo de duas cavidades – Cueto – cujo acesso é feito através da descida de um poço com mais de 300 metros directos de profundidade e a Cueva Coventosa. Todo o sistema demora cerca de 24 horas a ser percorrido. A ligação das duas cavidades é feita precisamente no último lago da Cueva Coventosa e a exploração deste ano tinha como objectivo reconhecer a cavidade de forma a poder, num futuro próximo, fazer a travessia Cueto-Cueva Coventosa.
A segunda equipa chegou ao exterior cerca de 10 minutos após a primeira, por volta das 19h. No regresso ao abrigo foi possível parar para admirar o incrível vale glaciar de Asón. Chegados ao abrigo e de banho tomado, todos nos deliciámos com o jantar confecionado pelo Grupo Espeleológico de Merindades.

Expedição do Projeto Mais Além ARCM – 2015 o mais exigente até à data!

Em 2015 o Projeto Mais Além foi o mais exigente porque a equipa que participou permaneceu três dias em autonomia dentro de uma gruta. Nesse ano a expedição contou com a presença de 8 espeleólogos do ARCM e o objetivo foi explorar parte do Sistema de La Gândara, com um desenvolvimento superior a 113km e um desnível entre a cota da entrada e o ponto mais fundo da cavidade de -814m.
Esta exploração obrigou à realização de estágios de preparação com os espeleólogos, pois a sua duração seria de três dias ininterruptos em cavidade. Em termos de logística, foi preciso providenciar alimentação para os três dias, equipamento para a montagem de um bivaque dentro da gruta para todos os elementos, equipamento técnico individual e coletivo para toda a progressão, equipamento para a higiene pessoal, necessidades fisiológicas e toda uma série de pormenores que uma expedição desta envergadura exige. Por isso todos os elementos participaram em várias sessões de preparação de modo a perceberem se estariam aptos física e psicologicamente para passar três dias dentro da cavidade.
A entrada por onde acederam à cavidade, mais fácil do que a existente até então, só foi encontrada em 2001, à cota altimétrica de 721m. Até este momento ainda estão a ser desenvolvidos trabalhos de exploração na cavidade. Este sistema tem aproximadamente 6km de extensão (distância em linha reta entre duas extremidades), ou seja, entre a entrada da Cueva de los Calígrafos e a exsurgência do coletor do Rio Chico (rácio de desenvolvimento de galerias: 18km por cada 1km de extensão).
Os poços principais do Sistema de La Gândara situam-se nos pontos mais altos do sistema e correspondem à antiga entrada (poço de -165m da Torca la Sima) e um poço de drenagem de águas para as galerias inferiores (poço de -100m) e os Puits de Zan Brun (poço de -70m).
Além da enorme e complexa rede de galerias, este sistema tem também os chamados grandes espaços ou salas. Podemos observar a Sala de los Ciclopes que se situa na Galeria del Rio Chico com 120m x 70m e temos também a emblemática Salle Angel com 80m x 70m. Esta sala está relacionada estratigraficamente com a confluência (através de fraturas) das águas dos níveis superiores provenientes da Sala Toucan com 50m x 90m.
Os espeleólogos entraram no Sistema de La Gândara às 10h40 e chegaram ao local do bivaque (cota de -633m) por volta das 20h30. Enquanto alguns elementos tratavam da montagem do bivaque, outros elementos foram em busca de água para consumir durante a permanência na cavidade. As equipas voltaram a reunir-se no acampamento por volta das 23h45. O segundo dia de exploração foi dedicado à exploração das galerias inferiores do Rio Viscoso (à cota de -605m) e a visitar o Puits du Zan Brun e a sua imponente queda de água. Nas galerias do Rio Viscoso, o nível das águas pode variar 20m consoante a época do ano. A chegada ao bivaque foi por volta das 20h30. No terceiro dia o bivaque foi desmontado e toda a equipa progrediu rumo à superfície tendo o último elemento chegado por volta das 16h30.

Expedição do Projeto Mais Além ARCM – 2018

Embora o projeto deste ano tenha terminado há poucos dias, a Secção de Espeleologia do ARCM já está a planear e a definir os objetivos para o próximo ano. A realização destas atividades só é possível com o empenho, esforço, dedicação e participação dos espeleólogos do ARCM, que fazem com que cada vez mais seja possível ir Mais Além!

ARCM – Julho de 2017

Foto: Vítor Rebelo